sábado, 25 de abril de 2015

"Link" que não "linka"

Fonte: http://www.zedudu.com.br/?attachment_id=6689
      Vós, diz a Linguística, falando ao link, sóis a textualidade do hipertexto: e chama-lhe textualidade do hipertexto porque quer que faça no texto digital o que fazem, por exemplo, a coesão e a coerência no texto impresso. O efeito da coesão e coerência é impedir o não texto, mas quando o meio digital se vê tão vazio de hipertextos como está o nosso, havendo tantos nele que têm ofício de coesão e coerência, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o link não link, ou porque o texto não se deixa linkar. Ou é porque o link não linka, ou porque a textualidade do hipertexto ainda não foi investigada; ou é porque o link não linka, e o autor promete HTML e tudo acaba em PDF; ou é porque o link não persuade, e o leitor, sendo verdadeiro o link que o texto lhe oferece, o não quer receber; ou é porque o link é desonesto, e os leitores querem antes fugir, que segui-lo; ou é porque o link é conhecido apenas por sua funcionalidade eletrônica, e o leitor, em vez de servir à Linguística Textual, serve apenas ao apetite da WEB 2.0. Não é tudo verdade? Quem sabe! Faltam pesquisas.
      Suposto, pois, que, ou o link não “linke” ou o texto digital não se deixe linkar; que se há-de fazer a este link e que se há-de fazer a este texto? O que se há-de fazer ao link que não linka? A Linguística disse: (...) os links que ajudam a caracterizar o hipertexto têm que estar no texto exercendo uma função textual e não apenas navegacional. Portanto, nem todo texto eletrônico é um hipertexto, mas todo hipertexto é eletrônico (GOMES, 2010:10). Se o texto digital perder o link ou ao link faltar função textual, o que se lhe há-de fazer, é nega-lhe o status de hipertexto, para que seja conhecido de todos. Quem se atreverá a dizer tal coisa, se a mesma Linguística a não pronunciara? Assim como não há o que seja mais digno de leitores, que o link que linka e faz o hipertexto; assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés o PDF.

Fonte: Adaptado de Sermão de S.° Antônio aos Peixes, de Pe. Antônio Vieira. Disponível em: httpwww.dominiopublico.gov.brdownloadtextoua000257.pdf_peavieira_sermpeixes. Acesso em: 25 abr. 2015.

sábado, 11 de abril de 2015

Siga o Coelho Branco


 
No filme Matrix (1999), a personagem Neo
(Keanu Reeves) é convidada a seguir
o coelho branco.
No mesmo instante, Alice entrou atrás dele, sem pensar com faria para sair dali.

     Se você já leu Alice no País dasMaravilhas, de Lewis Carroll, deve lembrar bem desta passam. Alice estava entediada. De repente, cruza a sua frente um coelho branco. Cheia de curiosidade, não porque ele tivesse belos olhos cor-de-rosa e soubesse falar, mas porque ele tinha um bolso no colete e havia tirado um relógio dali, Alice se pôs a segui-lo.
     Você já sabe que tipo de “coelho branco” anda seguindo ultimamente? Diante da tela do computador e conectados à internet, parece-me que somos todos Alice. Nesse contexto, o nosso coelho branco é o link. O termo “link” aqui significa ligar textos disponíveis em ambiente digital, associando-os uns aos outros, num movimento de complementariedade.
   Textos “linkados” formam aquilo que se tem chamado de hipertexto*. Certamente, um hipertexto é algo bem mais complexo do que essa estrutura básica, pois, para além de links e texto escrito, você poderá encontrar uma variedade de elementos de linguagem (imagem, áudio, vídeo e outros) na sua superfície.
     No entanto, como Alice, o que mais deve lhe interessar, neste momento, é seguir o coelho branco do hipertexto, ou seja, o link, porque este, por mais comum que lhe pareça ser, pode atrai-lo para a toca dele, que pode parecer tão infinita quanto à do Coelho Brando de Alice.
De fato, como Alice, você pode ser convencido de que vale apena seguir este ou aquele coelho branco só para ver onde isso vai dar. Desse modo, a presença de links na superfície textual é fundamental para a caracterização e a definição do hipertexto, pois eles representam as diversas possibilidades de associações entre textos digitais (GOMES,2010). Por meio deles, você poderá traçar o caminho de leitura que lhe parecer mais interessante seguir.
     Assim, um hipertexto será tão extenso quanto for a sua “curiosidade” para continuar seguindo os links. Os links potencializam uma incrível variedade de possíveis trajetórias de leitura. E, por tudo isso, a partir de agora, você não os verá como antes.

REFERÊNCIAS

*GOMES, Luiz Fernando. O “Hiper” do Hipertexto. In: _____. Hipertextos multimodais: leitura e escrita na era digital. Jundiaí: Paco Editora, 2010, pp. 19-32.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Faça-se o hipertexto!



    

Papa Bento XVI acessa o Twitter pela primeira vez.
Confesso ter duas manias. A primeira é que sou apaixonado por livros. De fato, posso gastar horas namorando essa invenção fantástica. A minha segunda mania é que, quando abro um livro, vou parar, quase que diretamente, na seção de referências.
Uma boa seção de referências pode salvar um mau livro. Se o livro é ruim, dá um nó na cabeça da gente ou fala de mais porque não há nada a dizer, mas as suas referências são consistentes, relevantes, isto é, se baseiam num tema central e não num ecletismo sem limites, menos mau, pois, ao menos, tenho uma lista já montada para eventuais consultas sobre aquele tema. Sempre que possível, eu vou àquelas referências e tento tirar as minhas próprias considerações.
Mas, afinal, o que esse papo sobre referências tem a ver com hipertexto? Talvez essa relação possa ser esclarecida com a historinha a seguir.
É de conhecimento geral que o tribunal do Santo Ofício não tinha muita simpatia para com algumas referências (autores) iluministas*. Você já deve ter ouvido falar do Index Librorum Prohibitorum – lista de livros proibidos pela Igreja Católica. Fui justamente nesse contexto de "caça aos livros" que nasceu a Encyclopédie, ou Dictionnaire da Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers (ou simplesmente, La Encyclopédie) – para mim, a mãe da enciclopédia moderna e avó da Wikipédia.
La Encyclopédie fazia parte do ambicioso projeto de  reunir (e difundir) o conhecimento produzido até então por intelectuais nos campos da filosofia, da matemática, da física, da astronomia, entre outros. Mas, como fazer isso se os censores da Igreja Católica não estavam muito dispostos a colaborar? Em miúdos, como “incluir” um librorum prohibitorum em La Encyclopédie sem que a Igreja percebesse?
A solução encontrada foi, astutamente, criar referências cruzadas** entre os textos publicados em La Encyclopédie e as obras censuradas pela Igreja Católica. Muito engenhosa essa solução!
Os colaboradores de La Encyclopédie estavam “linkando”(?) os textos uns aos outros, de modo a possibilitar que o leitor pudesse formar diversas sequências associativas, conforme seu interesse, para driblar, assim, as ordens do Santo Ofício.
Isso pode ser explicado da seguinte maneira. Digamos que você, leitor, ao ler até o fim um ensaio de Rousseau sobre a natureza humana, quisesse bisbilhotar as referências do autor, você poderia, não por acaso, ser direcionado para o Diálogo – obra de Galileu incluída no Índex da Igreja Católica – por exemplo, cujo texto, por motivo de ignorância inspiração divina, não poderia aparecer ali. É claro que, nesse caso, a decisão de dar mais um passo ou não caberia a você, mas, de qualquer modo, você já ficou sabendo que aquele texto de Galileu existe, e isso já era um avanço incrível. Além de servir para passar para trás a autoridade eclesiástica, as referências cruzadas também serviam para ampliar a discussão sobre um dado tema, remetendo o leitor, muitas vezes, para textos que apresentavam o mesmo tema sob pontos de vista distintos*.
Foi o desejo de dar total liberdade à razão, alimentado por autores como Voltaire, Rousseau e Montesquieu, que inspirou o uso de referências cruzadas. Se, por um lado, os iluministas não criaram o hipertexto, por outro, eles trabalharam o princípio de dar mais liberdade ao leitor, possibilitando, por meio das referências cruzadas, caminhos para uma maior diversidade de textos.
Nas últimas décadas, essa ideia de dar mais liberdade ao leitor tem ganhado força a partir de hipertextos como blogs, Facebook, Twitter e outros, que podem ser moldados conforme o gosto pessoal de cada leitor. Certamente, a ideia de hipertexto só foi viabilizada a partir das pesquisas de Vannevar Bush (1945) e Ted Nelson (1967) (GOMES, 2011).  No entanto, parece que a motivação para a sua criação foi a mesma que para o uso das referências cruzadas: transformar o texto em algo mais produtivo e menos restritivo.  


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

GOMES, Luiz Fernando. Breve história do hipertexto. In: ______. Hipertexto no Cotidiano Escolar, Série Trabalhando com. São Paulo: Cortez, 2011, pp. 15-25.

OUTRAS REFERÊNCIAS

* Siglo de la Rázin: Los enciclopedistas – La Ilustración: http://pioneros.puj.edu.co/cronos/crono3/siglodelarazon/losenciclopedistas.htm.